quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sossega, coração! Não desesperes!

de

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transform

domingo, 11 de maio de 2008

Domingo no Leo

Que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta?"
(Mário Quintana)

Era tarde de domingo, todos em volta de uma máquina de costura que se assemelha a uma mesa louvando a Baco. Boas companhias, cada uma com seu signficado pessoal: umas recentes, outras saudosas e outras cúmplices.Tarde até agradável, na média.

Já era final, só restavam brasas e as cinzas. Nem parecia que ali havia uma fogueira, dois metros de altura, tanto calor que mal se podia chegar perto. Mas já se ia a tarde e sobrara um calor convidativo, tão convidativo que sentamos cada um com seu copo, cada qual com suas lembranças. Começou com Cartola, aquela que Cazuza também cantou: ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida... Depois emendou o velho Vinícius, cantando os amores tristes e errados, as paixões redentoras e pungentes.

... e não sei se foi o dia das mães, o bom vinho que já ia subindo, a metáfora das brasas, meu estado de culpa crônica, a bossa nova, chico cantando "samba pra um grande amor", essa nostalgia pelo final iminente. E naquela tarde, todo esse estado não era pela minha insistência crônica pelos amores difíceis e inconclusos. Era por aquele momento fotográfico do "talvez seja a última vez que", ou talvez "apesar dos pesares, estamos aqui".

A metáfora da tarde pensei, era o fato de que estávamos todos ali, como de certa forma um dia fomos. Envoltos por aquelas antigüidades lúgubres e quase sem beleza - mas era só daquilo que precisávamos no momento. As músicas nos bastavam, mantiam-nos unidos. Comecei a relembrar as mesmas músicas em outros lugares, outras paragens, de como nem gostava de Bezerra da Silva num período tão remoto assim. De como todos ali participaram na minha formação como indivíduo adulto, apesar do passo principal desse processo fosse um rompimento e todas as mágoas recorrentes.

Quando se está no Léo o mais importante é cantar, é cantar juntos e cantar abraçados.
E que perdoar é uma das maiores dávidas que há no mundo.
E perdoei.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Acabou a tempestade...

Não, hoje não vim para escrever sobre dores, frio, insônia, nervosismo, lamentos ou fazer balanço do não-saber-quem-sou.
Como de costume, ponho músicas aleatórias todas as noites... me ajudam a pensar. E num repeat sem fim crio imagens que acompanham o fim dessa tempestade. É.. está estiando, o clico fechando, outro começando. Eu sei!
(...) e no player....

"Eu não quero mais correr
Vou cuidar do meu jardim
Trago flores pra você
Deixo o tempo lhe mostrar
Nossa historia é mesmo assim"

Parei de querer interferir, de artificializar a mudança...Tão dangerizada estava no roda-mundo que esqueci de perceber os progressos... Optei por remoer o não-dito. Que tola!
"Pára, meu coração, não penses!"
repeat

Atirei uma pedra na sua janela, uma que não fez o menor ruído, não quebrou, não rachou, não deu em nada....

As coisas sempre competem com nossas escolhas, as músicas, os livros, as pessoas...
e no player...

" E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
para todo mal, há cura."

(...)
Hoje li um texto que dizia que aos 5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente; aos 30 também, mas nesse caso "aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos disfarçam nossa pequenez". O conhecimento é, pois, uma benção e uma condenação: compreendermos a origem de nossos incômodos é sempre um exalar de possibilidades, inclusive negativas. E no player...

"É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez o que destrói"
...
Puxa.. se me lembrasse o autor, mas creio que ocupei a mente com o que importava do texto:

"Palavras são ferramentas que usamos para desmontar o mundo e remontá-lo dentro da nossa cabeça."

Do resto nao sei dizer.. no player agora "Metal contra as nuvens..." o mundo conspira também a favor. repeat, repeat...

"Eu vejo tudo que se foi

E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende."

Parece que o mar não está mais vazio... Desisto! essa música, essa letra, esse arranjo...
no player...

"Tudo passa, tudo passará...

E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

(Certa vez... numa alegria meio "Thelma e Louise" dentro do carro, minha amiga e eu nos olhávamos e entoávamos juntas, sorrindo e tentando arrancar uma da outra as certezas dessa letra...)


E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos."


A tempestade acabou e junto com ela um emaranhado de palavras confusas acima.... Não me importo, não se importe também... Ouça, apenas...

Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos."


terça-feira, 6 de maio de 2008

Pequenas Epifanias

Por andar tão distraída (novidade!), sem culpa e sem compromissos que não minha saúde (em vias de recuperação diga-se de passagem), expectativas basais e porque não dizer com péssimas intenções... não consegui externar nada por hoje. Pelo menos nada de realmente meu. Resolvi, então, chamar o jornalista-contista Caio Fernando de Abreu, rememorado(??) na minissérie "Queridos amigos" (que aliás não tive estrutura para acompanhar diariamente devido aos seus diálogos um tanto verdadeiros demais).
Ele, que tinha certeza que amar emburrece, encarava o tema como poucos, usando boa dose de realismo para descrever tais manifestações divinas. Ou melhor: pequenas epifanias, título de sua coletânea de crônicas, lançado em 1996, ano de seu falecimento. Também é o nome do texto abaixo, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1986:

(..)

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me recoheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obssessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível.”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa, ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia a dia.

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando pra trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo.

Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.




segunda-feira, 28 de abril de 2008

Abril

Sigo nestes dias cinzentos com uma leve felicidade taquicárdica de sentir o ar gelado doendo as narinas, trincando os dedos. Faço diariamente o mesmo caminho, duas quadras até o ponto de ônibus, numa atenção distraída pelas pequenas coisas, as pequenas coincidências, as milhares de referências que venho acumulando nestes 29 anos de vida.

A verdade é que essa é a única alegria que tenho tido nestas últimas semanas. Tenho trabalhado tanto, tanto - quase 15 horas por dia- iluminada pelos olhinhos dos meus alunos, que brilham ávidos por ouvir o que nós professores temos a dizer. Nunca senti minhas mãos tão inábeis ao lidar com tantas vidas muitas vezes maiores que a minha. Tento me fazer de forte e simular uma segurança além do que já tenho ao ouvi-los discorrer sobre seus cotidiano. Tão perdidos, às vezes, desorientados, carentes. E como precisam de nós!!
Mas o fato é que tenho gostado até mais do que eu esperaria desta rotina opressora, quase workaholic: a ponto de sempre levantar no outro dia sempre com um sorriso vago e fôlego renovado para outro dia difícil.

Estou tão imersa nesta rotina que, quando à noite apóio a cabeça na vidraça do ônibus de volta, não penso em nada além de vagos tecnicismos docentes, as obrigações do dia seguinte.

Agora me veio à lembrança do trecho (o autor se perdeu no cansaço)
"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você" e gostaria que isto estivesse acontecendo. Não acontece. Não sinto saudades, não sinto faltas, não faço planos, não telefono ou destilo esperanças. Para quem sempre foi movido de paixões em paixões, acho que nunca tive um mês tão árido quanto este abril que principia em terminar.

Depois de perceber como a vida é frágil e toda essa nossa impotência frente aos desequilíbrios, acho que nunca mais serei a mesma.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Tudo novo de novo....



De repente (e ironicamente) convidada a dois eventos nostálgicos, desses de revirar o baú, que encontramos não apenas boas lembranças, mas resquícios bolorentos de coisas que devemos esquecer.
A primeira, uma reunião acadêmia (pós?), cujo objetivo inicial é comemorar... quantos anos mesmo?? tsc tsc tsc
A segunda, um encontro (nada academico, diga-se de passagem) de amigos (amigos???), com objetivo único (e primordial) de preencher seus vazios e instisfações, conversas ao léu, promessas, recordações, sucessivas tentativas de repetir os mesmos gestos outrora apreciados, ai, ai, ai...
Reuniões IN MOFO, foi como as denominei... (Oremos!)
(...)


Sabe, custo a entender esse sentimento nostálgico que envolve as pessoas... Essa necessidade de (re) viver o que já passou.
É bem verdade que sinto saudades de pessoas, de acontecimentos... mas basta. Não os quero de volta! Também é sincera a vontade de rever amigos, mas quero-os no presente para falar de quem somos e não do que fomos. Lembrar e não viver o que éramos. Quem não quiser vir comigo para futuro que fique por lá...

Eu não... Prefiro o hoje, ser uma criança em processo de autodescoberta, eleando-me de coisas que desconheço.

Quero, sim, revigorar, oportunizar o presente, esperar o futuro... Voltar atrás seria perder chances...
É o mal-do-século! Esse escapismo adolescente, essa rejeição pelo presente e esse pavor do porvir, trazer o passado à forceps. Ultraje!
Rogo para que meus pretéritos repousem no sono dos justos e que fiquem por lá, em algum lugar, onde eu possa lançar mão somente para ter certeza do prazer de viver no presente.

Voltar? Não, não quero... Uma vez que nada pode ser como antes, mantenho intocado o meu passado para que continue exercendo seu melhor papel: perpertuar as melhores lembranças...
Quanto às ruins... Subjugo-me às lições e enterro-as!


domingo, 20 de abril de 2008

Trocando em miúdos

"Hoje me desfiz dos meus bens: vendi o sofá cujo tecido desenhei e a mesa de jantar onde fizemos planos.
O quadro que fica atrás do bar rifei junto com algumas quinquilharias da época em que nos juntamos. A tevê e o aparelho de som foram adquiridos pela vizinha, testemunha do quanto erramos. A cama doei para um asilo sem olhar pra trás e lembrar do que ali inventamos. Aquele cinzeiro de cobre foi de brinde com os cristais e as plantas que não regamos. Coube tudo num caminhão de mudança... até a dor que não soubemos curar mas que um dia vamos. "
(M.M)
(...)
Quero ainda lançar para longe de mim as palavras não ditas, nem que para tanto eu me lance junto e, que eu reapareça, reacenda, recupere, resgate, renove... recomece...